É a história de um monge que caminha na montanha. Não é um sábio, não é um desperto, um liberto vivo, como dizem por lá, mas um monge totalmente comum. Está perturbado, preocupado, porque soube que seu mestre, o venerável Fulano, que era um sábio, um desperto, um liberto vivo, que tinha conhecido a iluminação, etc., tinha morrido. Não é isso que o perturba; nosso monge sabe que um dia temos de morrer. Uma testemunha, que assistiu à cena, contou-lhe que o mestre tinha sido atacado por uns bandidos, que o mataram a cacetadas. Não é isso também que perturba nosso monge: já que temos de morrer, pouco importa a causa… O que o perturba é que essa testemunha confiou-lhe que, levando cacetadas, o sábio, o venerável, havia gritado atrozmente. E isso nosso monge não pode compreender. Como alguém que conheceu a iluminação, um desperto, um liberto vivo, pode gritar atrozmente por causa de umas cacetadas impermanentes e vazias? Isso perturba tanto nosso monge que ele não presta atenção, caminhando, no que acontece atrás dele… Chegam uns bandidos, que o atacam a cacetadas. Sob as cacetadas nosso monge grita atrozmente. Gritando, ele conheceu a iluminação.
…
A sabedoria nada pode contra cacetadas. Quando ele próprio as recebe, se o que ele compreende, levando cacetadas, é que, quando sente muita dor, o que um sábio pode fazer de melhor é gritar, e que o melhor, quando se sente uma dor atroz, é gritar atrozmente, se o que ele compreende é que se trata de identificar-se com o que se é, com o que se faz, de brigar quando é preciso, de gritar quando se sente dor, etc., então isso me faz pensar na identidade, em Nagarjuna, entre o nirvana e o samsara. A sabedoria não é um ideal a mais, ainda menos uma religião. A sabedoria é esta vida, tal como é, mas vivida em verdade. Claro, não há verdade absoluta, ou não temos acesso a ela: nunca estamos totalmente na verdade, assim como é raro estarmos totalmente no erro. A sabedoria é o máximo de felicidade no máximo de lucidez.